Banco empresta sem colateral, só que recusa colateral em Bitcoin, e a explicação está na regra de capital
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O Goldman Sachs financiava, sem exigir garantia, uma fintech brasileira que emprestava reais para pessoas físicas, só que recusou linha para operações com colateral em Bitcoin. O comitê executivo do banco sequer chegou a ouvir a proposta. O relato é do brasileiro Raphael Zagury, atual CEO da Twenty One Capital, em entrevista ao podcast Coin Stories, de Natalie Brunell, publicada em 15 de setembro.
Para J. P. Mayall, fundador do primeiro ETF de Bitcoin da América Latina, o episódio ilustra a distância entre risco de verdade e risco de etiqueta dentro do sistema bancário, e ajuda a explicar por que a discussão hoje se concentra em capital regulatório.
“Em 2025 caiu tudo que era exigência de supervisão, e ficou de pé a regra de capital. Ela funciona como duas travas. A primeira encarece, porque o banco precisa reservar capital próprio quase do tamanho da posição em Bitcoin. A segunda limita, porque existe um teto de quanto ele pode carregar em cripto, e, ultrapassado esse teto, não existe preço que resolva”, comenta J. P. Mayall.
A conversa que acaba antes do número
Zagury conta que levantou capital com a mesa do Goldman quando operava uma fintech de crédito no Brasil. O produto era empréstimo pessoal sem garantia nenhuma, concedido por aplicativo, em reais, ou seja, uma das classes de crédito mais arriscadas que existem. Anos depois, já no setor de Bitcoin, procurou a mesma mesa para levantar capital e emprestar contra colateral em Bitcoin, um ativo transparente, negociado 24 horas por dia e liquidável a qualquer momento.
A resposta inicial foi que Bitcoin era arriscado demais. Segundo o relato, ele apresentou a matemática do risco, a mesa concordou com cada ponto, só que avisou que a discussão não chegaria ao comitê executivo, porque a menção ao ativo encerraria a conversa antes de qualquer número ser analisado.
Na mesma entrevista, Zagury descreve um segundo desequilíbrio, dessa vez do lado da securitização. Ao estruturar dívida lastreada em receita de mineração, ele observou que emissores tratam fluxo de caixa como muito menos arriscado do que ativo, mesmo quando o ativo é o Bitcoin, que ele descreve como o colateral mais líquido e verificável disponível.
“Emissores veem fluxo de caixa como muito menos risco do que ativo, o que é uma loucura”, disse Raphael Zagury, CEO da Twenty One Capital, ao Coin Stories.
A mecânica não é teórica para Mayall. Ele foi fundador de uma plataforma brasileira de crédito com colateral em Bitcoin, estruturada com emissão de CCB, experiência em que esbarrou nas mesmas travas de apetite institucional que Zagury descreve.
O que travava antes e o que caiu em 2025
O episódio narrado por Zagury é anterior à regra de capital que hoje domina o debate. No período em que ele bateu na porta do banco, o que efetivamente inibia instituições americanas era outro conjunto de exigências, entre elas o SAB 121, editado pela SEC em março de 2022, que obrigava o banco a reconhecer no próprio balanço o criptoativo custodiado para clientes, além da carta SR 22-6 do Federal Reserve, da FIL-16-2022 do FDIC e dos dois comunicados conjuntos das agências, de janeiro e fevereiro de 2023, que sinalizavam preocupação com segurança e solidez.
Esse arcabouço foi desmontado ao longo de 2025. A SEC substituiu o SAB 121 pelo SAB 122 em 30 de janeiro, a OCC se retirou dos comunicados conjuntos em 7 de março, o FDIC revogou a FIL-16-2022 em 28 de março, e o Federal Reserve rescindiu a SR 22-6 e se retirou dos comunicados conjuntos em 24 de abril. Desde então, bancos americanos não precisam de notificação prévia nem de não objeção para atividades permitidas com criptoativos.
A trava que sobrou é de capital
Removidas as barreiras de supervisão e de contabilidade, o que permaneceu de pé foi a questão do capital regulatório, e é nela que entra o padrão de Basileia. Desde 1º de janeiro de 2026 está em vigor o SCO60, do Comitê de Supervisão Bancária de Basileia, finalizado em dezembro de 2022 e adiado por um ano em 2024. O padrão separa os criptoativos em grupos, e o Bitcoin, sem relação de hedge reconhecida, cai no chamado Grupo 2b, que recebe risk weight de 1.250%. Na prática, o banco precisa reservar capital equivalente ao valor total da posição.
Acima disso, o padrão impõe limites de exposição que não existem para nenhuma outra classe de ativo. Passando de 1% do capital Tier 1, o excedente já recebe o tratamento mais pesado e, passando de 2%, toda a carteira de criptoativos do Grupo 2 passa a receber. Ou seja, mesmo o banco disposto a arcar com o custo de capital esbarra no limite antes de transformar a operação em linha de negócio relevante.
O próprio Comitê de Basileia abriu, em novembro de 2025, uma revisão direcionada de pontos do padrão, com atualização divulgada em fevereiro deste ano e novos desdobramentos previstos para os próximos meses.
Os Estados Unidos ainda não responderam
Os Estados Unidos não implementaram o SCO60. Em 19 de março de 2026, o Federal Reserve, o Office of the Comptroller of the Currency (OCC) e o Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC) apresentaram duas propostas conjuntas de recalibragem das regras de capital, que reduzem risk weight para crédito corporativo e imobiliário e criam peso especial de 30% para exposição a banco americano bem capitalizado. As propostas não tratam de exposição a criptoativos, e o prazo de comentários se encerrou em 18 de junho.
O tratamento específico do tema é esperado por fora dessas propostas, sem proposta publicada nem cronograma anunciado até agora. Enquanto a definição não sai, bancos americanos operam sem parâmetro explícito de Pilar 1, cenário em que a leitura mais conservadora tende a prevalecer por precaução.
Mayall avalia que essa definição deve sair ainda em 2026 e que é ela, mais do que a agenda legislativa que domina o noticiário, o que determina o acesso bancário ao Bitcoin. Vale a ressalva de que o que está em jogo é permissão, não volume, já que os limites de exposição do padrão de Basileia restringem, por desenho, o tamanho da posição mesmo em cenário favorável.
Quem é Raphael Zagury
Brasileiro, Zagury assumiu em julho de 2026 o comando da Twenty One Capital (NYSE: XXI), segunda maior tesouraria corporativa de Bitcoin do mundo, com mais de 43.000 BTC em balanço e a Tether como acionista majoritária. Antes disso, foi executivo de renda fixa no Deutsche Bank, no Merrill Lynch e no Goldman Sachs, fundou uma fintech de crédito no Brasil, atuou como CIO da Swan Bitcoin e criou a Elektron Energy, mineradora com operações nos Estados Unidos, Brasil, Noruega, Canadá e Paraguai.
Quem é J. P. Mayall
Mayall é empresário e executivo do mercado de ativos digitais e cofundador da QR Capital, gestora vendida em 2025. Liderou o primeiro ETF de Bitcoin da América Latina (QBTC11) e outros três ETFs cripto pioneiros na B3, o primeiro fundo 100% em criptoativos do país e um dos primeiros projetos de tokenização aprovados no sandbox da CVM, além de estruturar a certificação CCA® da Ancord, ministrar o maior curso de criptomoedas já realizado pela B3, com 27 mil participantes, e assessorar a Anbima em Web3. Paralelamente, publica papers de teoria monetária no SSRN, entre eles um estudo sobre a exposição indireta de reservas soberanas de ouro a títulos do U.S. Treasury.
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