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Executivo que tokenizou R$ 300 milhões aponta falhas que o Morgan Stanley confessou em relatório sobre tokenização

14h ago
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Tokenização

O Morgan Stanley publicou na semana passada um relatório sobre tokenização de ativos que vem circulando entre gestores e investidores. Intitulado “ABCs of Tokenization”, o documento do Global Investment Office do banco propõe quatro critérios para identificar ativos que se beneficiam da tecnologia: mercados que operam 24 horas, demanda global, utilidade como colateral e fluxos de caixa programáveis.

No Brasil, quem chamou atenção para o conteúdo foi João Paulo Mayall, empresário com passagem incomum pelo setor.

Mayall foi responsável por um dos primeiros projetos de tokenização de ativos mobiliários aprovado no sandbox regulatório da CVM, autorizado a tokenizar 13 tipos de ativos, e estruturou na prática cerca de R$ 300 milhões em ativos tokenizados, incluindo debêntures e cotas de fundos. Ele também fundou a gestora responsável pelo primeiro ETF de Bitcoin da América Latina, o QBTC11, listado na B3.

Em análise publicada no X, o executivo afirmou que o relatório merece leitura atenta justamente pelo que admite nas entrelinhas.

“Descreveram o Bitcoin sem perceber e, no meio do caminho, o relatório ainda confessa diversas falhas que ninguém está comentando sobre tokenização de ativos.”

Mercado de US$ 61 bilhões, mas concentrado onde ninguém olha

Segundo os dados compilados pelo banco, o mercado de ativos tokenizados atingiu cerca de US$ 61 bilhões, excluindo stablecoins, um crescimento de 170% desde janeiro do ano passado.

Tokenização de ativos do mundo real ganhou tração nos últimos anos. Fonte: Morgan Stanley/Reprodução.

O número, porém, representa uma fração mínima do mercado de capitais global, que soma centenas de trilhões de dólares somente em ações e títulos.

A composição também surpreende. O maior ativo tokenizado do mundo não são Treasuries nem ouro, mas as HELOCs (Home Equity Line of Credit), linhas de crédito com garantia imobiliária americanas, com 38% do total. Ações tokenizadas, que dominam as manchetes, respondem por apenas 1%.

HELOCs dominam o setor de tokenização, superando outros ativos com maior destaque na mídia. Fonte: Morgan Stanley/Reprodução

Para Mayall, o dado revela algo que o relatório não desenvolve.

“O HELOC lidera porque a Figure origina o crédito nativamente on-chain. O ativo nasce digital, não migra de sistema legado. Essa diferença entre nascer on-chain e ser embrulhado depois separa o que escala do que vira piloto eterno”, avaliou.

Tokenizar não cria liquidez, admite o banco

Entre as confissões destacadas pelo executivo está o reconhecimento de que versões tokenizadas de ativos costumam ser menos líquidas que os originais nos sistemas tradicionais.

O relatório cita o setor imobiliário como exemplo: mesmo com a transferência de propriedade funcionando, o mercado secundário de imóveis tokenizados nunca se formou.

“Emitir é a parte fácil, qualquer estrutura competente emite. Liquidez exige formador de mercado com capacidade de hedge, base de investidores e giro, e nada disso vem no smart contract”, afirmou Mayall, que conhece o processo por dentro após as emissões que estruturou no mercado brasileiro.

O problema do cartório

A crítica mais contundente do executivo, porém, mira o que considera a falha estrutural do modelo. O próprio relatório admite que a maioria dos ativos tokenizados depende de um registro paralelo fora da blockchain, que continua sendo o registro legal da propriedade.

No caso dos imóveis, Mayall é direto.

“Token sem averbação na matrícula não é propriedade, é contrato de cessão de fração ideal sem RGI. No Brasil, direito real só nasce com o registro no cartório, artigo 1.245 do Código Civil, e nos EUA a lógica do county recorder é a mesma.”

“Se o direito do portador depende de convalidação estatal, o projeto não eliminou a confiança, apenas mudou ela de endereço. Tokenizaram o recibo, não o direito”, completou o executivo.

Bitcoin foi citado uma única vez pelo Morgan Stanley

A ironia final apontada pelo executivo é que o Bitcoin aparece uma única vez no documento de 11 páginas do banco: na seção de riscos. Para Mayall, trata-se do único ativo que atende aos quatro critérios do próprio Morgan Stanley sem depender de emissor, estrutura jurídica ou registro paralelo.

“O token é o próprio ativo e a posse da chave é a propriedade. Todo o resto que o relatório descreve é representação de um direito que mora em outro lugar. Wall Street não compra a revolução, ela licencia.”

A análise completa está disponível no perfil do executivo no X, @jpmayall.

Fonte: Executivo que tokenizou R$ 300 milhões aponta falhas que o Morgan Stanley confessou em relatório sobre tokenização

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